Trânsito em Bom Jesus da Lapa: cada um por si e o semáforo que lute
Dirigir em Bom Jesus da Lapa não é apenas sair de um lugar e chegar a outro. É uma experiência completa. Uma mistura de rally, teste psicológico, jogo de sobrevivência e curso intensivo de paciência. O trânsito da cidade parece funcionar com uma regra bastante simples: cada pessoa faz o que acha melhor e Deus organiza o restante.
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Faixa e sinalização viraram decoração urbana
As faixas pintadas no asfalto estão ali para deixar a rua mais bonita. Pelo menos é isso que muitos motoristas parecem acreditar.
Placa de pare? Sugestão.
Faixa de pedestre? Arte contemporânea.
Linha dividindo as pistas? Um desenho abstrato para estimular a imaginação.
Tem motorista que atravessa duas faixas ao mesmo tempo como se tivesse pago dois IPVAs e recebido o direito de ocupar a rua em dobro. Ele não anda na faixa da esquerda nem na da direita. Anda no meio, protegendo as duas propriedades.
Motoboys em missão contra a própria expectativa de vida
Os motoboys da cidade merecem respeito porque trabalham muito. Mas alguns também parecem participar de uma competição secreta para descobrir quem consegue chegar mais rápido ao destino ou ao pronto-socorro.
Eles aparecem pela esquerda, pela direita, pelo meio e, dependendo do trânsito, talvez por cima.
Você olha no retrovisor e não vê ninguém. Um segundo depois surge uma moto acelerando como se o pedido tivesse sido feito pelo presidente e estivesse atrasado para uma reunião da ONU.
A entrega pode até chegar quente. O problema é o coração do motorista, que chega gelado.
Farol alto para iluminar até os pensamentos
Existe uma parcela dos motoristas que usa farol alto dentro da cidade como se estivesse atravessando uma floresta sem estrada às três da manhã.
A rua está iluminada, existem carros na frente e há pessoas vindo no sentido contrário. Mesmo assim, o sujeito liga uma luz capaz de revelar os pecados de três gerações da sua família.
Você não enxerga a rua, mas consegue ver claramente o fim da sua paciência.
Pedestres caminhando em universo particular
Também não podemos colocar toda a culpa nos motoristas.
Alguns pedestres atravessam a rua como se estivessem passeando pela sala de casa. Não olham para os lados, não aceleram o passo e, em certos casos, nem parecem saber que existem veículos.
A pessoa entra na rua olhando para o celular, atravessa em diagonal e ainda demonstra surpresa quando um carro aparece.
É como entrar no Rio São Francisco e reclamar que encontrou água.
Semáforo é obrigatório, aparentemente
Os semáforos da cidade também enfrentam uma grave crise de autoridade.
O sinal fica vermelho, mas alguns motoristas interpretam como um convite à reflexão.
“Será que eu devo parar?”
“Será que esse vermelho é para mim?”
“Será que as leis de trânsito se aplicam neste bairro?”
Enquanto o motorista conclui sua pesquisa filosófica, ele já atravessou o cruzamento.
O verde significa seguir. O amarelo significa acelerar. E o vermelho, para algumas pessoas, significa acelerar com mais convicção.
Tour de France da Lapa
Os ciclistas também descobriram que Bom Jesus da Lapa possui uma etapa não oficial do Tour de France.
Alguns pedalam tranquilamente. Outros seguem no meio da pista, em grupo, conversando e ocupando a rua como se uma equipe internacional estivesse filmando tudo de helicóptero.
E quando existe algum evento com apoio policial, a sensação é ainda mais especial. Por alguns momentos, parece que a rua deixou de ser pública e passou a pertencer exclusivamente a quem comprou uma bicicleta, uma camisa apertada e um óculos que parece equipamento da NASA.
Quem está de carro apenas observa e aceita. Afinal, ninguém quer atrapalhar o sonho olímpico de ninguém.
As crateras da superfície lunar
O problema é que nem os ciclistas escapam dos buracos.
Algumas ruas de Bom Jesus da Lapa parecem ter sido usadas para testar meteoros. Existem buracos pequenos, grandes, fundos e outros que já deveriam ter nome, CEP e representação na Câmara Municipal.
O motorista não dirige em linha reta. Ele faz um percurso em zigue-zague tentando preservar pneus, suspensão e dignidade.
Quando chove, a situação melhora bastante porque a água esconde os buracos. Assim, além do prejuízo, temos também o elemento surpresa.
É praticamente uma raspadinha automotiva. Você passa e descobre na hora quanto perdeu.
Iluminação pública diretamente do século XVII
À noite, algumas ruas oferecem uma experiência histórica.
A iluminação é tão fraca que parece feita com velas trazidas diretamente do século XVII. Falta apenas alguém passar montado em um cavalo anunciando as horas.
Existem postes que iluminam um círculo de aproximadamente cinquenta centímetros. O restante da rua fica por conta da fé, do farol do carro e da memória de onde estavam os buracos durante o dia.
Em determinados trechos, o motorista não dirige. Ele faz uma investigação paranormal.
Uber com prioridade diplomática
Os motoristas de aplicativo também desenvolveram suas próprias regras.
Alguns acreditam que ligar o pisca-alerta transforma qualquer lugar em estacionamento oficial. Pode ser esquina, faixa de pedestre, entrada de garagem ou o centro exato da rua.
Ligou o pisca-alerta, pronto. A Constituição perdeu a validade temporariamente.
Também existe o Uber que dirige a cinco quilômetros por hora enquanto conversa no celular, procura o endereço e pergunta ao passageiro onde deve entrar.
Os carros se acumulam atrás, mas ele segue tranquilo. Afinal, na cabeça dele, não existe trânsito. Existem apenas pessoas esperando pacientemente que ele resolva sua vida.
Os campeões mundiais da lentidão
E finalmente temos o motorista lento.
Não estamos falando de quem dirige com cuidado. Estamos falando de quem percorre uma avenida inteira em velocidade de cortejo, ocupando duas faixas e contemplando a paisagem.
Ele anda tão devagar que você consegue observar o crescimento das plantas na calçada.
Quando percebe que alguém quer ultrapassar, ele não escolhe uma faixa. Continua no meio, mantendo sob seu controle toda a infraestrutura viária disponível.
Talvez tenha realmente pago dois IPVAs. Não sabemos. O comportamento indica que sim.
O trânsito é ruim, mas o problema somos todos nós
É fácil reclamar da prefeitura, da sinalização, dos buracos, da iluminação e da fiscalização. E devemos reclamar mesmo, porque a administração do trânsito precisa melhorar bastante.
Mas também existe uma parte que depende de quem dirige, pedala ou atravessa a rua.
Não adianta pedir organização enquanto tratamos semáforo como sugestão, faixa como decoração e pisca-alerta como licença para fazer qualquer coisa.
Bom Jesus da Lapa precisa de ruas melhores, iluminação adequada, sinalização visível e fiscalização constante. Mas também precisa de pessoas que entendam que o trânsito não é uma competição para descobrir quem chega primeiro, ocupa mais espaço ou toma a decisão mais irresponsável.
Porque, no ritmo atual, sair de casa para comprar pão está começando a exigir capacete, seguro de vida e uma despedida emocionante da família.
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